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Paralipómenos (i): as muralhas de Samaris

Isto foi nos meses de verão. Era ao fim do dia. Estava sozinho, e entrei na tasca, para petiscar alguma coisa por pouco dinheiro. Já lá tinha estado antes, mais do que uma vez. Foi dos primeiros restaurantes da nova vaga, surgidos desse impulso de renovação a emergir da crise. Ficava numa das ruas mais antigas da cidade, onde, absurdamente, ainda passam automóveis. Era cedo e estava vazio. Os modos da rapariga que me atendeu, habituais de quem sabe receber num estabelecimento destes, brilhavam de uma naturalidade sem exageros.

Enquanto eu varria o espaço com os olhos para escolher a mesa, ela disse-me que iria haver fado, na sala quadrada que fica ao fundo. Parecia genuinamente preocupada pela minha condição de solitário e pensou que, ficando para assistir ao espectáculo, eu poderia suavizar a minha (por certo, no seu entender, triste) situação. A verdade é que não faço questão de ouvir música enquanto como, mas o convite foi tão simpático, que acedi. Ao entrar na sala vi que só havia mesas para quatro pessoas. Ia a escolher uma, mais a um canto. Reparei que a rapariga tinha voltado ligeiramente atrás, ao corredor, e dialogava em voz baixa com o dono do estabelecimento, que estava atrás do balcão. A conversa era mantida propositadamente num tom baixo para me impedir de perceber o que era dito; no entanto, percebia-se que era tensa, com repreensão e argumentos a pairar. Tive a percepção de que o melhor seria não ficar naquela sala e disse à menina que preferia ir para a outra, mais apropriada para gatos-pingados. Ali ficaria, na companhia dos meus pensamentos e a salvo das lamentações fadistas.

O jantar correu como esperado, uns petiscos do mar, acompanhados com bom pão e bom vinho da zona, e só pecou pelo recipiente completamente inadequado onde a salada de polvo jazia em equilíbrio precário: um pequeno «tabuleiro» de cerâmica, sem bordos, a fazer de travessa, o que tornava a tarefa de transferir o conteúdo para o prato um malabarismo impossível, a não ser aplicando o método pouco elegante de varrimento puro e simples. Ainda assim não era fácil manter os alimentos na superfície incontida da peça de design. É claro que, pelo meio, alguns gramas de polvo e cebola se espalharam pela mesa. Para completar, entornei, sem querer, o que restava da taça de vinho. A menina disse-me que eu era pior que os miúdos. Eu ri-me. Ela riu-se.

No fim, perguntei, como quem afirma, se aquilo de ainda não terem pagamento automático não seria mesmo definitivo, ao que ela respondeu com um esgar de cumplicidade contida.

Fui então pagar, ao balcão, atrás do qual o dono fazia as honras da casa a um casal de meia-idade de aparente boa condição, que tinha acabado de chegar. O dono, com barba de três dias e boné de rufia novecentista, falava de coisas aparentemente boémias com o olhar a roçar o infinito, e o ar de quem recorda certos velhos tempos de aventura, perigos caseiros e quotidiano cheio de tradição e pobreza vintage, repleto de soluções improvisadas e hábitos de prazer ritualizados. Desta forma, o empreendedor burguês de geração setenta, fazia os possíveis para criar um clima de empatia e entendimento com os clientes, sexagenários, também eles burgueses de ar liberal, através de supostos factos ou hábitos que nem um nem outros teriam alguma vez experimentado. Quase esperei ouvi-lo falar sobre a partilha de uma sardinha por quatro irmãos ou de um jogo de futebol com bola de meias, mas a farsa não chegou a tanto. Fiquei ali uns dois ou três minutos, enquanto esperava que ele concluísse a unção de simpatia funcional sobre os clientes que não sei ao certo se se sentiriam tão especiais como a conversa poderia fazer crer ou se encarariam com naturalidade o seu próprio papel naquela encenação comercial.

Vivemos, talvez mais do que nunca, uma era de realidade virtual. Tudo se conceptualiza, planeia, prevê. Procura-se o outro para o manipular em função de objectivos próprios. Faz-se uso das matérias da emoção, tentam-se adivinhar reacções, provocar sensações. Recriar ambientes e épocas de que não se tem a não ser ideias estereotipadas. A tasca, cujo nome, que não reproduzo, ostensiva e supostamente evocava eras passadas, era uma espécie de Portugal dos Pequenitos, de Comboio Fantasma, de Disneylândia. Tratava-se de um espaço-conceito, um parque temático que, no caso, pretendia evocar o ambiente da taberna de bairro onde o cliente é recebido como um velho habitual, com quem se priva a embriaguez, as frustrações quotidianas e, quem sabe até, a expectoração, devidamente acomodada na serradura do pavimento. No entanto, tal como a cidade de Samaris de Peeters&Schuiten, estes espaços não têm espessura, para além dos planos de fachada. Muitos dos projectos empreendedores dos nossos dias são assim, bidimensionais, vistosos quanto baste e vazios de substância. A crispação do taberneiro diante da possibilidade de uma mesa para quatro cabeças ficar bloqueada por uma só e o despropósito da pseudo-travessa modernista e disfuncional são duas marcas, ainda que aparentemente desligadas, desta mesma realidade. Num sítio assim, pouca sorte a da miúda para quem o cliente é uma pessoa. É que, mais cedo ou mais tarde, a simpatia funcional colide com a autêntica: os seus fins são opostos e, por isso, caminham em sentidos contrários.

A propósito, o outro dia passei por lá, e vi que tinha fechado definitivamente.

isto ainda há-de ser qualquer coisa (ii)

Sou uma besta, não sou? Por favor, diz-me ao menos que sou uma besta. Lança-me à cara a lentidão do entendimento, dá-me um tabefe, daqueles que põem os neurónios a falar uns com os outros. Hoje vinha mesmo a calhar, hoje que acordei daquele sonho, um daqueles sonhos que surgem já sobre a manhã, a prenunciar o fim do sono e, talvez por isso mesmo tão reais, a deixar-nos um carimbo na alma pelo dia fora.

Agora, justamente, que saboreava o silêncio como um oceano tranquilo onde pudesse encontrar ilhas da minha própria invenção, ilhas fantásticas de utopia amorosa onde as mãos se encaixam sem folgas, aquele sonho dormente a abrir uma brecha lúcida nos delirantes sonhos despertos,

uma carta, escrita à mão, extensa, que principiava com um tema inofensivo, já não me lembro bem, (o detergente das horas solares dissolveu-o sem apelo), talvez um filme, talvez um poema

e eu férias num quarto espartano, como em férias de outras décadas, lá atrás,

um sítio com pátios e paredes caiadas e muros com canteiros de sardinheiras e patamares justapostos, entre os quais se passava por uns poucos degraus brancos e não sei porquê isto, talvez o convento na serra, talvez porque os doze anos então ainda um anteontem de sonho e esperança utópica, não sei, não sei

e a carta continuava e a prosa prenunciava palavras mais densas para o fim, mas quando esses parágrafos estavam já ao alcance

subitamente, sem transição, a partida das férias, o carro ajoujado de bagagens e gente (quem?), um terreiro ligeiramente inclinado, na frente de casas baixas, antigas, que a cal descascada tornava soturnas, uma luz difusa e tristonha a fazer dos tufos de erva pisada manchas pardas no solo

e  a carta ainda entre as mãos, mas o carro por conduzir, e a manobra (inversão de marcha) a perder-me da leitura e aquela sensação de que o dia está a chegar, uma aura de realidade objectiva a crescer implacável no horizonte do sonho, uma desistência que se alimenta de si própria, (será assim a marcha imparável da morte?)

o toque esclarecedor do lençol a chamar-me para o silêncio, agora sem ilhas nem mar, nem utopia, um deserto sem dunas, sem pedras, nem ao menos um cacto onde pudesse ferir-me, um escorpião, ao menos, nada,

(se tivesse cauda estaria a persegui-la furiosamente)

sou uma besta e ninguém para mo lançar à cara, a não ser o silêncio, a contar talvez com proezas de intelecção para além do meu alcance

(pobres neurónios desnutridos)

maldigo o universo e seus encaixes, passava bem com uma amnésia selectiva

arrepio-me como quem sacode um pensamento parasita

dissolvo-me em sol invicto por umas horas

passo mais um vão da negra ponte

enrosco-me debaixo desse arco

até que o sono me desperte

do outro lado do silêncio.

ainda o silêncio

Como se atravessa o silêncio?
Nesse deserto, às vezes contento-me com gotas: de uma aspersão breve faço um dilúvio. Resiliente é o que por estes dias tecnocráticos se chama a isto. Como os cactos, que incham de água a regas mensais. Ou os peixes dipnóicos, à espera, na lama, da próxima estação húmida, quando não têm um outro charco, ao alcance do caminhar penoso, numa atrapalhação de barbatanas. É o exercício de distinguir, no meio do ruído, a possibilidade de uma mensagem, como os astrónomos à espera de um sinal inteligente do universo.
Outras vezes, o silêncio é o dilúvio, e quase naufrago em ondas de perplexidade e teimosos pontos de interrogação.
O silêncio, conserva ou degrada? É uma reticência ou um ponto final? Pergunto só para dar uma ordem passageira às ideias. Só para que o discurso não se dissolva nos impulsos da epiderme. Gosto de ver-te passar, mesmo que não dês por mim; gosto de ver-te viver, onde queres ser vista. Do pouco, vou saboreando, nesta aprendida economia de gotas. Numa dessas ocasiões vi-te, à janela de amigos, de onde assistias a uma procissão. Sorrias, e o teu sorriso era simultaneamente feliz e melancólico. Como se dissesses: «sim, estou aqui, neste lugar estranho, esta gente boa deu-me guarida por umas horas». Sorrias para a objectiva e o truque de óptica pôs-te a sorrir para mim, em diferido. Essa melancolia feliz de viajante atingiu-me no instante em que os meus olhos encontraram os teus na fotografia. E fez-me percorrer todo esse espaço que em mim também te dá guarida. Estarei a elaborar na folha branca do silêncio, mas a matéria, sendo pouca, é verdadeira. Luz que marca este cosmos pardo. Foco de calor no meio da massa inerte dos que se rendem à morte por assimilação. É quando vejo que o silêncio não é mais do que o vão que a ponte vence, esse nada, às vezes espesso, às vezes vago, que dá sentido ao encontro entre as margens.

(J.R. ‘Isto ainda há-de ser qualquer coisa’)

Pequena arenga sobre a comunicação digital

(…)o facto de falarmos praticamente só por este meio deixa algumas áreas de sombra.. e as áreas de sombra são como os sítios escuros das casas, que nós temos tendência a encher com coisas que nos assustam (...)

 De um ciber-diálogo

Criaram-se novos meios de comunicação, com um alcance nunca visto, nunca pensado, talvez apenas imaginado nas mitologias (as mensagens dos deuses). Estes novos meios aliam o grande alcance ao carácter imediato. A uma primeira vista, poderá parecer, por si só, um derrube das últimas barreiras da comunicação. Ora, os meios de comunicação são como condutas, tubos: facilitam mas não melhoram, assim como um tubo de água não melhora a qualidade da água que transporta (pode quando muito piorá-la). E juntam dois aspectos que, naturalmente, até há poucos anos estiveram relativamente afastados. Nos velhos tempos[1] a comunicação oral estava associada ao imediato; a comunicação escrita ao permanente. Daí expressões como «o que fulano diz não se escreve» ou «palavras leva-as o vento». Isto envolvia uma natural (e saudável) reserva mental em relação ao que era dito-falado, em oposição ao que era dito-escrito. Por outro lado, sendo a comunicação oral imediata, está, de algum modo, formatada para uma percepção igualmente imediata e não tanto para segundas e terceiras «leituras». Ainda que se possa, com propriedade, afirmar que a comunicação escrita depende do seu contexto, a comunicação oral está-lhe (ao seu contexto) mais frequente e extensamente subjugada, na medida em que o mesmo é, estatisticamente, de muito mais curto alcance, tanto no tempo como no espaço. Uma diferença de segundos ou de poucos metros pode alterar por completo o enquadramento de uma frase e, logo, a sua interpretação.

Ora, voltando ao que já se escreveu atrás, os dispositivos que hoje temos para comunicar juntam numa mesma acção a oralidade e a escrita. Hoje, falamos a escrever: com uma boa parte das pessoas com quem comunicamos (para não dizer a maior) conversamos muito mais pelo teclado do que pela voz (telefonemas incluídos). O neologismo «teclar» entrou assim no vocabulário: não é propriamente escrever, não é propriamente falar, é algo híbrido. E, como todas as coisas híbridas, se, por um lado, junta numa só coisa caracteres até aí exclusivos das partes que a compõem, também acaba por ficar privada de alguns outros que cada uma dessas partes contém em separado. Há sinergias e perdas. Ganha-se sobretudo em memória e também em alguns poucos aspectos de expressão (certos jogos de palavras que só na linguagem escrita têm sentido); mas perde-se, da linguagem escrita tradicional, a reflexão, a coerência do encadeamento de ideias, o espaço para a explicação que envolva conceitos complexos e o tempo: o tempo de escrever e o tempo de ler; por outro lado, da linguagem oral, vai-se o tom e a inflexão e, não menos importante, o seu carácter efémero. Daí que, muito naturalmente, afirmações de contexto restrito, pontual e furtuito fiquem fossilizadas na forma escrita, dando lugar, numa releitura, a interpretações contraditórias e muitas vezes completamente distorcidas. Mas, não só sobre as releituras: esta ameaça paira também e acima de tudo sobre a leitura imediata, principalmente pela falta daqueles elementos físicos da transmissão (tom, inflexão), que carregam indispensáveis componentes da mensagem. Além de que a distância[2] impede o conhecimento ou, pelo menos, a observação directa do contexto físico e emocional do Outro, permitindo que as duas partes possam estar a dialogar em registos completamente distintos e até opostos.

Por outro lado, estes meios permitem também a criação de canais de comunicação quotidianos entre indivíduos que podem nunca chegar a encontrar-se fisicamente. Isto gera condições acrescidas para que os sujeitos da comunicação sejam personagens, alter-egos ou avatares, muitas vezes bem distantes dos indivíduos que os criaram. Sendo um facto que a expressão do indivíduo em sociedade é, e sempre foi, uma imagem mais ou menos controlada do seu eu, nestas novas condições o grau dessa manipulação pode expandir-se drasticamente, levando a equívocos que serão tanto mais complicados quanto mais seriedade o receptor colocar nesse intercâmbio.

Um outro aspecto, de alguma forma também ligado ao anterior, é o de uma maior perda de empatia entre os sujeitos, potenciada pelo relativo esconderijo que a internet proporciona. Um efeito semelhante já há muito foi observado na forma como os condutores se interpelam na estrada, usando, de dentro do abrigo da viatura, formas muito mais violentas e/ou grosseiras de expressão do que se estivessem cara a cara com o interlocutor. Particularmente nos fora de discussão, ou no comentário de assuntos polémicos, as posições antagónicas tendem a ser expressas num registo agressivo, não poucas vezes recorrendo ao insulto. Como se não houvesse consequências palpáveis dessa atitude, ou como se houvesse um entendimento implícito de que o que está a ser dito/escrito não tem peso. Neste caso seria justo afirmar que muitas vezes o que se escreve nas redes sociais não se diz cara a cara, invertendo assim as posições relativas da proposição tradicional… e que a comunicação não passa de uma entretenga inconsequente.

O que está aqui em causa não é uma suposta ineficácia da comunicação por meios virtuais, mas antes o facto de estes, sendo recentíssimos, nos colocarem também novos problemas que convém sabermos reconhecer e, se não resolver, pelo menos contornar. Subjacente a tudo isto está o facto de qualquer meio tecnológico ser eticamente neutro, pelo que os ganhos de eficácia estão restritos aos aspectos operacionais/funcionais. Podem, por isso, potenciar tanto o que há de melhor como que há de pior nos seus utilizadores, recaindo sobre o arbítrio destes a forma de actuar. Assim, como em tudo, a reflexão sobre uma nova possibilidade acaba sempre por conduzir a uma reflexão sobre nós próprios. Não poucas vezes, a nossa conduta assenta mais sobre aquilo que estamos impossibilitados de fazer do que sobre um sistema ético, facto de que podemos não chegar a dar-nos conta até ao momento em que a tal impossibilidade é removida.

Há problemas com a tecnologia? – Cherchez l’Homme.

[1] Antes da Internet.

[2] «Distância» entendida aqui como a separação física (seja ela de centenas de metros ou de milhares de quilómetros).