isto ainda há-de ser qualquer coisa (ii)

Sou uma besta, não sou? Por favor, diz-me ao menos que sou uma besta. Lança-me à cara a lentidão do entendimento, dá-me um tabefe, daqueles que põem os neurónios a falar uns com os outros. Hoje vinha mesmo a calhar, hoje que acordei daquele sonho, um daqueles sonhos que surgem já sobre a manhã, a prenunciar o fim do sono e, talvez por isso mesmo tão reais, a deixar-nos um carimbo na alma pelo dia fora.

Agora, justamente, que saboreava o silêncio como um oceano tranquilo onde pudesse encontrar ilhas da minha própria invenção, ilhas fantásticas de utopia amorosa onde as mãos se encaixam sem folgas, aquele sonho dormente a abrir uma brecha lúcida nos delirantes sonhos despertos,

uma carta, escrita à mão, extensa, que principiava com um tema inofensivo, já não me lembro bem, (o detergente das horas solares dissolveu-o sem apelo), talvez um filme, talvez um poema

e eu férias num quarto espartano, como em férias de outras décadas, lá atrás,

um sítio com pátios e paredes caiadas e muros com canteiros de sardinheiras e patamares justapostos, entre os quais se passava por uns poucos degraus brancos e não sei porquê isto, talvez o convento na serra, talvez porque os doze anos então ainda um anteontem de sonho e esperança utópica, não sei, não sei

e a carta continuava e a prosa prenunciava palavras mais densas para o fim, mas quando esses parágrafos estavam já ao alcance

subitamente, sem transição, a partida das férias, o carro ajoujado de bagagens e gente (quem?), um terreiro ligeiramente inclinado, na frente de casas baixas, antigas, que a cal descascada tornava soturnas, uma luz difusa e tristonha a fazer dos tufos de erva pisada manchas pardas no solo

e  a carta ainda entre as mãos, mas o carro por conduzir, e a manobra (inversão de marcha) a perder-me da leitura e aquela sensação de que o dia está a chegar, uma aura de realidade objectiva a crescer implacável no horizonte do sonho, uma desistência que se alimenta de si própria, (será assim a marcha imparável da morte?)

o toque esclarecedor do lençol a chamar-me para o silêncio, agora sem ilhas nem mar, nem utopia, um deserto sem dunas, sem pedras, nem ao menos um cacto onde pudesse ferir-me, um escorpião, ao menos, nada,

(se tivesse cauda estaria a persegui-la furiosamente)

sou uma besta e ninguém para mo lançar à cara, a não ser o silêncio, a contar talvez com proezas de intelecção para além do meu alcance

(pobres neurónios desnutridos)

maldigo o universo e seus encaixes, passava bem com uma amnésia selectiva

arrepio-me como quem sacode um pensamento parasita

dissolvo-me em sol invicto por umas horas

passo mais um vão da negra ponte

enrosco-me debaixo desse arco

até que o sono me desperte

do outro lado do silêncio.

ainda o silêncio

Como se atravessa o silêncio?
Nesse deserto, às vezes contento-me com gotas: de uma aspersão breve faço um dilúvio. Resiliente é o que por estes dias tecnocráticos se chama a isto. Como os cactos, que incham de água a regas mensais. Ou os peixes dipnóicos, à espera, na lama, da próxima estação húmida, quando não têm um outro charco, ao alcance do caminhar penoso, numa atrapalhação de barbatanas. É o exercício de distinguir, no meio do ruído, a possibilidade de uma mensagem, como os astrónomos à espera de um sinal inteligente do universo.
Outras vezes, o silêncio é o dilúvio, e quase naufrago em ondas de perplexidade e teimosos pontos de interrogação.
O silêncio, conserva ou degrada? É uma reticência ou um ponto final? Pergunto só para dar uma ordem passageira às ideias. Só para que o discurso não se dissolva nos impulsos da epiderme. Gosto de ver-te passar, mesmo que não dês por mim; gosto de ver-te viver, onde queres ser vista. Do pouco, vou saboreando, nesta aprendida economia de gotas. Numa dessas ocasiões vi-te, à janela de amigos, de onde assistias a uma procissão. Sorrias, e o teu sorriso era simultaneamente feliz e melancólico. Como se dissesses: «sim, estou aqui, neste lugar estranho, esta gente boa deu-me guarida por umas horas». Sorrias para a objectiva e o truque de óptica pôs-te a sorrir para mim, em diferido. Essa melancolia feliz de viajante atingiu-me no instante em que os meus olhos encontraram os teus na fotografia. E fez-me percorrer todo esse espaço que em mim também te dá guarida. Estarei a elaborar na folha branca do silêncio, mas a matéria, sendo pouca, é verdadeira. Luz que marca este cosmos pardo. Foco de calor no meio da massa inerte dos que se rendem à morte por assimilação. É quando vejo que o silêncio não é mais do que o vão que a ponte vence, esse nada, às vezes espesso, às vezes vago, que dá sentido ao encontro entre as margens.

(J.R. ‘Isto ainda há-de ser qualquer coisa’)

John Berger, 2001

Between the experience of living a normal life at this moment on the planet and the public narratives being offered to give a sense to that life, the empty space, the gap is enormous. The desolation lies there, not in the facts. This is why one third of the French population are ready to listen to Le Pen. The story he tells – evil as it is – seems closer to what is happening in the streets. Differently, this is also why people dream of “virtual reality”. Anything – from demagogy to manufactured onanistic dreams – anything, anything to close the gap! In such gaps people get lost, and in such gaps people go mad.

(John Berger, ‘A Bed’ in ‘The Shape of a Pocket’, 2001)