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Pequena arenga sobre a comunicação digital

(…)o facto de falarmos praticamente só por este meio deixa algumas áreas de sombra.. e as áreas de sombra são como os sítios escuros das casas, que nós temos tendência a encher com coisas que nos assustam (...)

 De um ciber-diálogo

Criaram-se novos meios de comunicação, com um alcance nunca visto, nunca pensado, talvez apenas imaginado nas mitologias (as mensagens dos deuses). Estes novos meios aliam o grande alcance ao carácter imediato. A uma primeira vista, poderá parecer, por si só, um derrube das últimas barreiras da comunicação. Ora, os meios de comunicação são como condutas, tubos: facilitam mas não melhoram, assim como um tubo de água não melhora a qualidade da água que transporta (pode quando muito piorá-la). E juntam dois aspectos que, naturalmente, até há poucos anos estiveram relativamente afastados. Nos velhos tempos[1] a comunicação oral estava associada ao imediato; a comunicação escrita ao permanente. Daí expressões como «o que fulano diz não se escreve» ou «palavras leva-as o vento». Isto envolvia uma natural (e saudável) reserva mental em relação ao que era dito-falado, em oposição ao que era dito-escrito. Por outro lado, sendo a comunicação oral imediata, está, de algum modo, formatada para uma percepção igualmente imediata e não tanto para segundas e terceiras «leituras». Ainda que se possa, com propriedade, afirmar que a comunicação escrita depende do seu contexto, a comunicação oral está-lhe (ao seu contexto) mais frequente e extensamente subjugada, na medida em que o mesmo é, estatisticamente, de muito mais curto alcance, tanto no tempo como no espaço. Uma diferença de segundos ou de poucos metros pode alterar por completo o enquadramento de uma frase e, logo, a sua interpretação.

Ora, voltando ao que já se escreveu atrás, os dispositivos que hoje temos para comunicar juntam numa mesma acção a oralidade e a escrita. Hoje, falamos a escrever: com uma boa parte das pessoas com quem comunicamos (para não dizer a maior) conversamos muito mais pelo teclado do que pela voz (telefonemas incluídos). O neologismo «teclar» entrou assim no vocabulário: não é propriamente escrever, não é propriamente falar, é algo híbrido. E, como todas as coisas híbridas, se, por um lado, junta numa só coisa caracteres até aí exclusivos das partes que a compõem, também acaba por ficar privada de alguns outros que cada uma dessas partes contém em separado. Há sinergias e perdas. Ganha-se sobretudo em memória e também em alguns poucos aspectos de expressão (certos jogos de palavras que só na linguagem escrita têm sentido); mas perde-se, da linguagem escrita tradicional, a reflexão, a coerência do encadeamento de ideias, o espaço para a explicação que envolva conceitos complexos e o tempo: o tempo de escrever e o tempo de ler; por outro lado, da linguagem oral, vai-se o tom e a inflexão e, não menos importante, o seu carácter efémero. Daí que, muito naturalmente, afirmações de contexto restrito, pontual e furtuito fiquem fossilizadas na forma escrita, dando lugar, numa releitura, a interpretações contraditórias e muitas vezes completamente distorcidas. Mas, não só sobre as releituras: esta ameaça paira também e acima de tudo sobre a leitura imediata, principalmente pela falta daqueles elementos físicos da transmissão (tom, inflexão), que carregam indispensáveis componentes da mensagem. Além de que a distância[2] impede o conhecimento ou, pelo menos, a observação directa do contexto físico e emocional do Outro, permitindo que as duas partes possam estar a dialogar em registos completamente distintos e até opostos.

Por outro lado, estes meios permitem também a criação de canais de comunicação quotidianos entre indivíduos que podem nunca chegar a encontrar-se fisicamente. Isto gera condições acrescidas para que os sujeitos da comunicação sejam personagens, alter-egos ou avatares, muitas vezes bem distantes dos indivíduos que os criaram. Sendo um facto que a expressão do indivíduo em sociedade é, e sempre foi, uma imagem mais ou menos controlada do seu eu, nestas novas condições o grau dessa manipulação pode expandir-se drasticamente, levando a equívocos que serão tanto mais complicados quanto mais seriedade o receptor colocar nesse intercâmbio.

Um outro aspecto, de alguma forma também ligado ao anterior, é o de uma maior perda de empatia entre os sujeitos, potenciada pelo relativo esconderijo que a internet proporciona. Um efeito semelhante já há muito foi observado na forma como os condutores se interpelam na estrada, usando, de dentro do abrigo da viatura, formas muito mais violentas e/ou grosseiras de expressão do que se estivessem cara a cara com o interlocutor. Particularmente nos fora de discussão, ou no comentário de assuntos polémicos, as posições antagónicas tendem a ser expressas num registo agressivo, não poucas vezes recorrendo ao insulto. Como se não houvesse consequências palpáveis dessa atitude, ou como se houvesse um entendimento implícito de que o que está a ser dito/escrito não tem peso. Neste caso seria justo afirmar que muitas vezes o que se escreve nas redes sociais não se diz cara a cara, invertendo assim as posições relativas da proposição tradicional… e que a comunicação não passa de uma entretenga inconsequente.

O que está aqui em causa não é uma suposta ineficácia da comunicação por meios virtuais, mas antes o facto de estes, sendo recentíssimos, nos colocarem também novos problemas que convém sabermos reconhecer e, se não resolver, pelo menos contornar. Subjacente a tudo isto está o facto de qualquer meio tecnológico ser eticamente neutro, pelo que os ganhos de eficácia estão restritos aos aspectos operacionais/funcionais. Podem, por isso, potenciar tanto o que há de melhor como que há de pior nos seus utilizadores, recaindo sobre o arbítrio destes a forma de actuar. Assim, como em tudo, a reflexão sobre uma nova possibilidade acaba sempre por conduzir a uma reflexão sobre nós próprios. Não poucas vezes, a nossa conduta assenta mais sobre aquilo que estamos impossibilitados de fazer do que sobre um sistema ético, facto de que podemos não chegar a dar-nos conta até ao momento em que a tal impossibilidade é removida.

Há problemas com a tecnologia? – Cherchez l’Homme.

[1] Antes da Internet.

[2] «Distância» entendida aqui como a separação física (seja ela de centenas de metros ou de milhares de quilómetros).

 

(c)2015 Jónatas Rodrigues