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Isto ainda há-de ser qualquer coisa (III)

E então dei-me conta de estar no meio de qualquer coisa que não me dizia respeito. Aconteceu no momento de uma triangulação pouco plausível de factos: de um lado, intermitências indecifráveis e de outro, uma quase aversão a pedir distância higiénica sem razão aparente, ou, pelo menos, manifestamente exagerada, dadas as circunstâncias. Tudo isto, de repente, desenhou-me na mente preguiçosa uma outra espécie de triângulo, longe de equilátero e sem ângulos rectos; no dealbar dessa percepção quase me ri por ter esperado tanto e com tanta esperança; vi, num tal cenário, como devo ter sido, sem o saber, inconveniente e perturbador. Essas duas linhas, irregularmente tracejadas, nervosas, neuróticas até, têm um ponto de contacto que não me ocorreu antes, e podem bem definir um ângulo mais agudo do que supunha no meu alheamento e, tenho de admiti-lo, efectiva distância. Sabendo que os lugares não se conquistam – ou pertencem-nos ou não – tranquiliza-me ir conhecendo os que são meus, ou, dizendo melhor, aqueles a que eu pertenço, e identificar os outros a que não pertenço nem nunca virei a pertencer: este é o tipo de conhecimento que nos faz poupar energia e guardá-la para o nosso próprio caminho, o que na prática reduz ao mínimo o comprimento dos becos desnecessários (que também os há necessários, nem que seja para descansar um pouco). A quem, como eu, tem a mania da intervenção, custa ficar-se pelo passivo de ser-se espelho ou oratório ou muro das lamentações. Mas também é verdade que isto pode ser tão útil e efectivo ao outro como a mais empenhada das diligências. Porque a despeito de todas as metáforas, falar para alguém que permaneça calado é sempre preferível a falar para uma parede ou uma porta: estas nunca serão recipientes, mas tão só superfícies reflectoras. Por isto mesmo, não só é preferível, como desejável. Em certos casos, e mais naqueles em que a fala ascende do âmago e por isso resulta quase intraduzível para o universo alheio, tudo o que se possa dizer em resposta arrisca-se ao erro crasso, que faz mais dano do que benefício. Por isso, o retorno do silêncio torna-se a face terna da compreensão possível.

Antropozóico – Jónatas Rodrigues

Está disponível a nova publicação Krrastzepy Verlag. Antropozóico, de Jónatas Rodrigues, inaugura a colecção CSI (coisas sem interesse)  e é, antes do mais, um livro pretensioso. Esta é uma condição necessária para merecer publicação. Não sabemos se reúne as restantes, nem sabemos que condições serão essas.

Paira e mergulha no universo das pessoas. É um livro incoerente na forma e já não tanto no conteúdo: uma primeira parte em prosa que em certos momentos alguém poderia chamar poética e uma segunda parte num formato talvez ensaístico, mas razoavelmente desorganizado.

Esperamos que agrade e desagrade.

Já mora nas bancas da livraria UniVerso, rua do Concelho, em Setúbal (junto à Câmara Municipal) e na bagageira do carro do editor.

Informações para aquisição através do mail:  jonatas@krrastzepy.pt

Vilém Flusser, 1983

Images are mediations between the world and human beings. Human beings ‘ex-ist’, i.e., the world is not immediately accessible to them and therefore images are needed to make it comprehensible. However, as soon as this happens, images come between the world and human beings. They are supposed to be maps but they turn into screens: Instead of representing the world, they obscure it until human beings’ lives finally become a function of the images they create. Human beings cease to decode the images and instead project them, still encoded, into the world ‘out there’, which meanwhile itself becomes like an image – a context of scenes, of states of things. This reversal of the function of the image can be called ‘idolatry’; we can observe the process at work in the present day: the technical images currently all around us are in the process of magically restructuring our ‘reality’ and turn it into a ‘global image scenario’. Essentially this is a question of ‘amnesia’. Human beings forget they created the images in order to orientate themselves in the world. Since they are no longer able to decode them, their lives become a function of their own images: Imagination is turned to hallucination.

(Vilém Flusser, ‘Towards a Philosophy of Photography’, Reaktion Books)