Entre as Brumas

(vi)

Não sabe porque o trouxeram ali. A grande caixa de madeira é içada para o interior de uma cova cercada por montes de terra. Tapam-na, consumindo os montes, em movimentos maquinais. Há um som cavo que se repete. Suave, suave, como a invocar o sono. Boceja.

(v)

As paredes da sala são de um cinzento mudo. Nelas movem-se sombras, síncronas dos homens vestidos de igual. Um deles faz-lhe muitas perguntas, minudências de história e geografia que nada lhe dizem. «Onde mora», «de onde veio», «quando saiu de casa». Um palimpsesto de mapas de estradas atropela-se-lhe diante do olhar desfocado, desenhando vias rápidas no rosto do inquiridor. Não é essa a pergunta, diz para si, não é isso que interessa, não vê? Mas o homem vestido de igual aos outros não sabia, como podia saber, do caminho enviesado que no fio do instinto seguira e logo perdera no nevoeiro do presente voraz? A pergunta é: porquê a ausência que esvazia o mundo? Que interessam sítios e datas, quando todos os lugares e todos os dias são iguais? Não, o homem vestido de igual aos outros não podia saber.

(iv)

Nem ele próprio sabia já da trajectória ínvia que calcorreou, entre avenidas e baldios. Nem de como se guiara por imperceptíveis sons metálicos, com qualquer coisa de choque de talheres, que os seus ouvidos resgatavam de entre babilónias de ruído. Ou por fios de aroma açucarado, que distinguia sob um arvoredo e certas vozes e palavras, lançadas ao vento depois de trituradas.

(iii)

Como começara a corrida? Havia uma porta, sim, uma porta e um homem, também ele vestido de igual a outros. Este homem era como outra porta, sempre fechada. Mas houve um estrondo e gritos no lado de lá da porta e o homem-porta desapareceu, deixando abertas todas as portas. O vazio alastrava, tornando o espaço igual e devorando as linhas que desenhavam os lugares. Saiu então, deixando atrás de si o reboliço que não vira, seguindo o rasto de um perfume que enchia o mundo, até ao lugar onde o sol se abate sobre as coisas.

(ii)

Antes disso, só o vazio. Os ponteiros do relógio deixaram de dizer coisa com coisa. A sala, de paredes brancas, já não era precisa. O vazio enchia o espaço. E a cabeça. Doía, a explodir. O corpo, um maquinismo obsoleto. Olhou para as mãos sem saber o que fazer com elas. Nos olhos e ouvidos, uma sede insuportável.

(i)

Carmem faz 71 anos. A sua figura é baça, os gestos acusam desistência e reumatismo. Mas, neste momento, todo o olhar está concentrado na pesagem dos ingredientes para um bolo: o seu bolo de aniversário. Que irá levar ao lugar onde está e não está, António, seu companheiro, desde que se lembra.

Ausente, nos seus delírios insondáveis, António desliza por caminhos solitários dentro da cabeça. Nem a visita de Carmem, religiosa e pontual, a cada dia, o faz querer voltar ao mundo doce e tranquilo que ela lhe deu.

 

Ela continua a fazer o bolo, envolve por fim a farinha na massa fofa de ovos, açúcar e manteiga. Um bolo simples, numa altura em que não se pedem artifícios – o olhar, o toque, uma palavra afectuosa bastam. O resto da vida foi prova de amor suficiente. O bolo está no forno. Agora, dá brilho ao rosto, um pouco de rouge, e bâton. A écharpe nos ombros. O bolo sai do forno, arrefece um pouco enquanto procura a carteira e a enche com tudo aquilo de que não vai precisar.

Pelo caminho, o coração de Carmem cede, sob o peso esmagador de um enfarte.

Ao fim dessa tarde, António sai pela porta principal do hospício em busca de qualquer coisa perdida.

Ele não sabia, como podia saber?

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