Da resistência

A resistência é a oposição a uma força, no sentido mais estrito e num sentido mais lato, a qualquer coisa que tenda a progredir. É, seguindo estes mesmos princípios, e por definição, ela própria também uma força.

O objecto da resistência pode ser um movimento de um corpo, pode ser uma impregnação, pode ser uma invasão de qualquer espécie. Pode também ser um estado de coisas aparentemente estático, que encontra oposição interna em um ou cada um dos elementos que nele estão imersos, ou por ele subjugados – e, desta forma, ainda não necessariamente estático, já que lhe falta ainda progredir para dentro destes e esse movimento subsiste, mesmo que apenas em potencial.

A resistência pode ser activa ou passiva.

A resistência passiva reside essencialmente na estrutura do elemento resistente. Trabalha por inércia ou pela colaboração de elementos que, interligados, distribuem a carga uns pelos outros, resistindo no conjunto.

A resistência passiva conta, acima de tudo, com o esqueleto, físico ou intelectual/ético. É a única forma de resistência do corpo manietado, mas não submisso. Este corpo cede só no que não pode evitar, àquelas forças maiores do que o seu próprio peso, mantendo-se, das articulações para dentro, inamovível. Se em algum momento chegar a ceder internamente, quer dizer que morreu, literal ou metaforicamente.

A resistência passiva pode ser confundida com acomodação, também designada «conformação». A etimologia desta última é esclarecedora: adquirir a forma, ou fazer concordar a forma. A conformação não é, porém, uma resistência, porque não se opõe ao que é imposto. É uma aceitação do tal estado de coisas ou da força que actua. A forma do conformado só depende da vontade ou da acção do conformador. Esta forma imposta, esta conformação, ao contrário do que frequentemente se associa a este conceito, causa dores no sujeito, é um factor doentio. E estas dores não são menos do que um luto eternizado, que se transmuta em duas formas de morte: apatia ou suicídio. Ao contrário, a resistência passiva preserva a identidade, esperando vencer o inimigo pelo cansaço. É uma vontade de sinal negativo – a vontade de não querer.

A resistência activa contém a componente da resistência passiva, e acrescenta-lhe uma acção contrária, dinâmica. Para além de travar a progressão do seu objecto, pretende fazê-lo recuar. Inclui, necessariamente, o conceito de vontade positiva.

A vontade, seja de sinal negativo ou positivo, é a mais simples forma de expressão identitária.

A resistência passiva radica na matéria. A resistência activa radica na vontade. Vencidas uma e outra, dá-se a aniquilação do sujeito resistente ou a sua transformação.

Contudo, o que define qualquer um destes cenários é a distribuição relativa de relevância pelas categorias em que a força externa/resistência actua, ou seja, nas consequências que tenha na definição de uma identidade.

As forças agressoras serão assim, mais cedo ou mais tarde, agentes de identificação, já que trazem à tona, por contraste, a forma e o carácter do sujeito. No entanto, isto só é válido dentro dos limites da sua capacidade resistente.

Em personalidades complexas, por exemplo, a força «agressora» vem frequentemente do interior e pretende tomar o controlo do ser, ou seja, da identidade, sobrepondo-se à vontade e carácter mais racionais ou emocionais. Por outro lado, este tipo de pulsão, como por exemplo, a da sobrevivência, pode ser trazido à liça pelo agente agressor externo, mediante a criação de condições adequadas.

Num caso e noutro, o fim último de um tal processo será o da moldagem da vontade e emoções a essa força interna que assim opera uma transmutação da identidade. E transmutação também é uma forma de morte.

Porém, ainda que o discurso faça pensar o contrário, nada disto tem necessariamente sinal de valor.

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