ainda o silêncio

Como se atravessa o silêncio?
Nesse deserto, às vezes contento-me com gotas: de uma aspersão breve faço um dilúvio. Resiliente é o que por estes dias tecnocráticos se chama a isto. Como os cactos, que incham de água a regas mensais. Ou os peixes dipnóicos, à espera, na lama, da próxima estação húmida, quando não têm um outro charco, ao alcance do caminhar penoso, numa atrapalhação de barbatanas. É o exercício de distinguir, no meio do ruído, a possibilidade de uma mensagem, como os astrónomos à espera de um sinal inteligente do universo.
Outras vezes, o silêncio é o dilúvio, e quase naufrago em ondas de perplexidade e teimosos pontos de interrogação.
O silêncio, conserva ou degrada? É uma reticência ou um ponto final? Pergunto só para dar uma ordem passageira às ideias. Só para que o discurso não se dissolva nos impulsos da epiderme. Gosto de ver-te passar, mesmo que não dês por mim; gosto de ver-te viver, onde queres ser vista. Do pouco, vou saboreando, nesta aprendida economia de gotas. Numa dessas ocasiões vi-te, à janela de amigos, de onde assistias a uma procissão. Sorrias, e o teu sorriso era simultaneamente feliz e melancólico. Como se dissesses: «sim, estou aqui, neste lugar estranho, esta gente boa deu-me guarida por umas horas». Sorrias para a objectiva e o truque de óptica pôs-te a sorrir para mim, em diferido. Essa melancolia feliz de viajante atingiu-me no instante em que os meus olhos encontraram os teus na fotografia. E fez-me percorrer todo esse espaço que em mim também te dá guarida. Estarei a elaborar na folha branca do silêncio, mas a matéria, sendo pouca, é verdadeira. Luz que marca este cosmos pardo. Foco de calor no meio da massa inerte dos que se rendem à morte por assimilação. É quando vejo que o silêncio não é mais do que o vão que a ponte vence, esse nada, às vezes espesso, às vezes vago, que dá sentido ao encontro entre as margens.

(J.R. ‘Isto ainda há-de ser qualquer coisa’)

(c)2016 Jónatas Rodrigues

John Berger, 2001

Between the experience of living a normal life at this moment on the planet and the public narratives being offered to give a sense to that life, the empty space, the gap is enormous. The desolation lies there, not in the facts. This is why one third of the French population are ready to listen to Le Pen. The story he tells – evil as it is – seems closer to what is happening in the streets. Differently, this is also why people dream of “virtual reality”. Anything – from demagogy to manufactured onanistic dreams – anything, anything to close the gap! In such gaps people get lost, and in such gaps people go mad.

(John Berger, ‘A Bed’ in ‘The Shape of a Pocket’, 2001)