Between the experience of living a normal life at this moment on the planet and the public narratives being offered to give a sense to that life, the empty space, the gap is enormous. The desolation lies there, not in the facts. This is why one third of the French population are ready to listen to Le Pen. The story he tells – evil as it is – seems closer to what is happening in the streets. Differently, this is also why people dream of “virtual reality”. Anything – from demagogy to manufactured onanistic dreams – anything, anything to close the gap! In such gaps people get lost, and in such gaps people go mad.
(John Berger, ‘A Bed’ in ‘The Shape of a Pocket’, 2001)
«(…) Pois ou se nasce para ser água, e então encharcamo-nos, ou se nasce para ser homem, e então não há infância. Mas se a houve, então é porque não se nasceu para ser homem. (…)
«Os poemas ou as histórias que nos redimem (ou nos quais encontramos o mesmo tipo de redenção) estão a ser escritos ou já foram escritos e esperam que os leitores, ao longo do tempo, uma e outra vez, assumam isto: que a mente humana é sempre mais sábia do que os seus mais atrozes feitos, desde que lhes possa dar um nome; que na própria descrição dos nossos actos mais abomináveis algo na boa escrita os mostra como abomináveis e portanto não conquistáveis; que apesar da debilidade e da arbitrariedade da linguagem, um escritor inspirado pode contar o impronunciável e atribuir uma forma ao impensável, para que o mal perca alguma da sua qualidade divina e fique reduzido a algumas palavras memoráveis.»