Citações

Alexandre Soljenitsine, “Arquipélago de Gulag”, Vol I

As nossas canetas russas escrevem a traços largos. Temos sofrido enormemente e disso quase nada foi escrito. Mas para os autores ocidentais, com a sua preocupação de examinar à lupa as células do organismo, agitando a ampola farmacêutica sob a luz dos projectores, isto é uma verdadeira epopeia, que permitirá acrescentar dez tomos à Procura do Tempo Perdido, descrevendo o pânico do espírito humano quando numa cela há uma sobrelotação vinte vezes superior à prevista, e não há baldes, só sendo permitido ir à latrina uma vez por dia!

(Alexandre Soljenitsine, “Arquipélago de Gulag”, Vol I)

O Aleph, Jorge Luis Borges

Argos, de olhos postos nos céus, gemia; pela cara abaixo rolavam-lhe caudais não só de água, mas também (como vim a saber depois) de lágrimas. «Argos», gritei-lhe, «Argos!».

Então, com mansa admiração, como se acabasse de descobrir uma coisa perdida e esquecida há muito tempo, Argos balbuciou estas palavras: «Argos, cão de Ulisses.» E a seguir, também sem me olhar: «Esse cão atirado para o esterco.»

Nós aceitamos facilmente a realidade, talvez por intuirmos que nada é real. Perguntei-lhe o que conhecia da Odisseia. A prática do grego era-lhe penosa. Tive de repetir a pergunta.

«Pouquíssimo», disse ele. «Menos que o mais pobre dos rapsodos. Já deverão ter passado mil e cem anos desde que a inventei.»

(Excerto de O Imortal, in O Aleph, Jorge Luis Borges)

Fragmentos de «A Porta do Sol», de Elias Khoury

 

Nesses dias, meu amigo,  tínhamos medo das pessoas assassinadas. Não tínhamos medo dos assassinos, mas dos assassinados.Tínhamos medo da cal viva. Tínhamos medo que os mortos se levantassem e avançassem para nós, trazendo consigo a cal que os cobria e as nuvens de moscas que os rodeavam.

(…)

Ele amava-a como se ela fosse a mulher de outro homem.

(…)

O peixe do mar de Tiberíades não acaba. A Galileia é isso, peixe, Cristo e pescadores. Eles não conhecem a Galileia. Tentam criar uma indústria de pesca. Como podem industrializar a água sobre a qual caminhou Cristo?

(…)

Pendurarei aqui todas as fotografias. Viveremos rodeados pelas fotografias.

Tirarei uma da parede, dou-ta e tu contarás uma história. Depois dar-te-ei outra, e tu contarás outra história. Suceder-se-ão as histórias.

Assim, organizaremos a nossa história desde o início, sem deixar uma única falha por onde a morte se possa infiltrar.

(Fragmentos de «A Porta do Sol», de Elias Khoury)